Escalpelamento: uma questão social

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Psicólogas abordam tema em trabalho e falam dos riscos, da falta de proteção e da importância do acompanhamento profissional às vítimas.

Os danos psicológicos dos escalpelamentos, acidentes que envolvem perda do couro cabeludo, orelhas e sobrancelhas, são tema de dois trabalhos apresentados na 2ª Mostra Nacional de Práticas em Psicologia. O evento acontece no Anhembi, em São Paulo, entre os dias 20 e 22 de setembro. 

Embora seja pouco conhecido pelos brasileiros, o escalpelamento é recorrente no Brasil, especialmente na região Amazônia, e envolve principalmente mulheres e crianças.  Somente este ano já ocorreram nove desastres desse tipo.

“Estes incidentes acontecem por falta de fiscalização dos rios, de políticas públicas. São cerca de 100 mil barcos na Amazônia e seus motores são na maioria feitos por qualquer pessoa. Não têm segurança nenhuma”, explica Jureuda Guerra, psicóloga da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, referência no tratamento de escalpelados, e coautora dos projetos oferecidos na Mostra.

Jureuda, em conjunto com a psicóloga da polícia militar Jeisiane Calderaro, elaborou um pôster que será apresentado no evento com o tema “Escalpelamento – Um cuidado diário”, focado no atendimento às mulheres vítimas do escalpelamento. Ela também apresenta o vídeo “Escalpelamento: acidentes com barco a motor”, que relata do que se trata e como acontecem as ocorrências. 

A psicóloga Jureuda Guerra acredita que os trabalhos que inscreveu na Mostra são importantes para enfatizar a importância de ações para proteger as vítimas desse tipo de acidente. “É um problema que considero de gênero, além de um fenômeno amazônico”, define.

 Importância do tratamento

Os primeiros registros de acidentes com motores começaram na década de 1960. Somente em 2006 foi criado um instrumento voltado para as pessoas afetadas, o Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento da Santa Casa (Paives), do qual Jureuda Guerra faz parte.

O Paives atende as pessoas afetadas com auxílio de enfermeiros, cirurgiões, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas. O tratamento inclui desde enxertos que retiram tecidos das nádegas e das coxas para serem aplicados na cabeça e preencher a área perdida pelo acidente, até o uso de remédios para estimular o crescimento do couro cabeludo.

Segundo Jureuda, o indivíduo nunca se recupera totalmente dos danos físicos e dos problemas psíquicos causados.  “O nosso trabalho busca a recuperação da autoimagem da mulher, para ela se perceber a partir desta ressignificação. Esperamos que ela tenha outra visão de si mesma, da vida, pois estes acidentes desencadeiam diversas fobias e transtornos”, afirma. 

Além das mulheres, diversas crianças são afetadas. “Uma criança de oito anos chegou com perda total do couro cabeludo, até mesmo da orelha. Vai ter que ficar pelo menos quatro meses em atendimento”, diz. O acompanhamento psicológico com jovens se dá, inclusive, na perspectiva de que não abandonem a escola, pois Jureuda conta que há muitas situações debullying por conta dos acidentes.

A reprodução das notícias é autorizada desde que seja citada a fonte: Conselho Federal de Psicologia.

2 Comments

  1. simone padilha says:

    Quero muito conhecer este trabalho, sempre acompanho reportagens sobre o tema, e nunca havia ouvido sobre a intervenção da Psicologia nesses casos, que são extremamente delicados, e é uma região que com poucos recursos.Parabens para as pessoas que realizam o trabalho.

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  2. Nivya Valente says:

    Tema bastante pertinente, o PA está de parabéns pelo programa! abço

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